Setor de biocombustíveis teme retrocessos em políticas públicas
“Foi um momento delicado”, afirmou essa liderança. Segundo essa fonte, a declaração veio em um momento de avanço de regulações pró-renováveis sob o atual governo.
Entre elas, estão o aumento das misturas de biocombustíveis, a regulamentação das políticas para o biometano, para o combustível sustentável de aviação (SAF) e para o biocombustível para uso marítimo, e o avanço do programa Mover, que favorece tecnologias com menor pegada de carbono.
Essa liderança atribui a declaração de Flávio Bolsonaro à influência de Adolfo Sachsida na campanha do candidato.
O economista foi ministro de Minas e Energia no governo de Jair Bolsonaro e reduziu a mistura de biodiesel ao diesel em sua gestão. Além disso, propôs mudanças no RenovaBio, política de apoio aos biocombustíveis, que poderiam colocá-los em desvantagens em relação a alternativas.
Agora, o nome de Sachsida é ventilado como possível ministro da Fazenda de um governo Flávio Bolsonaro. Procurada, a campanha do candidato não respondeu sobre o tema.
Por outro lado, há no setor críticas ao atual subsídio dado à gasolina pelo governo, mas que depois de alguns meses foi compensado com uma subvenção também ao etanol.
Um dirigente, que preferiu não ser identificado, ponderou que os avanços em políticas públicas já foram consolidados na legislação, e até na Constituição, com a emenda que garantiu o diferencial tributário dos biocombustíveis em relação aos combustíveis fósseis. Para ele, os avanços nas regras deverão ser garantidos pela bancada ruralista no Legislativo.
Um ex-executivo do setor, que também falou sob anonimato, disse temer que um governo de Flávio Bolsonaro não priorize os biocombustíveis no plano internacional, onde o Brasil ganhou protagonismo nos últimos meses.
O destaque foi a iniciativa do governo brasileiro de lançar na COP30 o compromisso “Belém 4x”, pelo qual os países aderentes se comprometem a quadruplicar a produção de combustíveis sustentáveis até 2035.
Em paralelo, o Brasil tem liderado as discussões na Organização Marítima Internacional (IMO) para regulamentar as regras de redução de emissões no setor naval, o que deve destravar uma demanda por biocombustíveis do tamanho do atual mercado interno brasileiro.
“É um momento em que a gente deveria estar se posicionando para influenciar esses novas regulamentos, de que nossa contribuição possa ser evidenciada, e nos tornarmos o principal fornecedor de combustível renovável para o mundo inteiro. Todos deveriam olhar para nós como a grande refinaria de combustível sustentável do mundo”, afirmou o sócio de agronegócios do Santos Neto Advogados, Frederico Favacho.
Já o CEO da gestora Finance in Motion Brasil, José Pugas, vê risco de “se quebrar acordos internacionais que fizeram com que nossa indústria de biocombustíveis reduzisse ameaças de reputação anteriores, que eram barreiras comerciais disfarçadas de ambientais”.
Segundo ele, o Brasil já demonstrou que é possível produzir biocombustível sem concorrer com alimentos e isso permitiu “pacificar o acordo do Mercosul com a União Europeia”.
Para o professor e líder do Laboratório de Genômica e BioEnergia (LGE) da Unicamp, Gonçalo Pereira, se o próximo governo não tiver uma agenda para os biocombustíveis e for subserviente a um país “dificilmente essa oportunidade [de ser protagonista no tema] vai se concretizar”.
Ele disse ainda que “derrubar os biocombustíveis” significa “derrubar diversos setores do agronegócio”.
Camila Souza Ramos
Fonte: NovaCana — Notícias




